Imposto Global da China: A Monetização de Uma Fuga Inacabada
Imposto Global da China: A Monetização de Uma Fuga Inacabada
Por Tao Miyazora
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O erro é pensar que o assunto principal aqui é imposto.
Trata-se de alcance. Trata-se de medo. É sobre um regime em declínio tentando converter saídas incompletas em receita.
Quando Pequim sinaliza que as pessoas nascidas dentro do sistema comunista chinês, incluindo funcionários ligados a filiais no exterior de organizações vinculadas à China, devem declarar renda estrangeira às autoridades chinesas, a leitura superficial é a de que a China está se tornando uma potência fiscal global madura. A leitura mais profunda é o oposto. Uma ordem confiante se expande para fora construindo confiança, reciprocidade e instituições que os outros estão dispostos a honrar. Uma ordem frágil expande as suas pretensões porque está a ficar sem alvos mais fáceis e seguros de espremer no seu interior.
Esse é o quadro real.
O primeiro ponto é simples: a China pode escrever o que quiser em sua própria lei. Isso prova a intenção, não a capacidade. Um país pode declarar direitos tributários mundiais sobre aqueles que ainda define como indivíduos residentes. Mas escrever um direito na legislação interna não significa que o mundo exterior o tornará operacional para você. Não significa que Estados estrangeiros o ajudarão a identificar alvos, preservar sua alavancagem ou normalizar seu alcance. A lei, por si só, é apenas um pedaço de papel com uma fronteira desenhada à volta.
Isto se torna ainda mais relevante quando lembramos do que a própria Pequim afirmou sobre a Declaração Conjunta Sino-Britânica. Em 2017, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que a Declaração Conjunta era "um documento histórico que não tem mais qualquer significado prático" e acrescentou que não é "de forma alguma vinculativa" na gestão de Hong Kong pelo governo central. A Reuters publicou a citação na íntegra.
Essa frase fez mais do que insultar a Grã-Bretanha. Ela anunciou uma regra: Pequim trata compromissos legais como ferramentas que são significativas quando úteis e descartáveis quando inconvenientes. Quando um governo adota essa postura com relação a um tratado oficial, ele põe abaixo muito mais do que apenas uma ponte. Isso prejudica a confiança básica em quaisquer compromissos oficiais, marcos de cooperação e mecanismos técnicos que envolvam esse governo, tornando duvidosa a sua validade em tempos difíceis. Então, quando Pequim, mais tarde, espera que outros honrem acordos transfronteiriços de relatórios que servem aos seus próprios interesses de extração, ela se depara com a resposta óbvia: se suas obrigações inconvenientes podem se tornar "documentos históricos", por que seus arranjos convenientes deveriam ser tratados como sagrados?
E é por isso também que não darei um peso analítico significativo ao CRS. O Common Reporting Standard (Padrão de Relatórios Comuns) não é um pilar de poder. É encanamento. A própria OCDE o descreve por meio de "relações bilaterais de troca ativadas", o que já diz exatamente de que tipo de natureza se trata: não uma lei universal independente da política, mas um arranjo vivo que depende da constante ativação e manutenção das jurisdições para funcionar. Além disso, os Estados Unidos nunca aderiram ao CRS; continuaram a manter seu regime soberano próprio (FATCA).
Portanto, o CRS nunca se tratou das vigas rígidas que muitos parecem acreditar. Desde o princípio, tem funcionado sob certas condições e pressões políticas e sua consistência sempre foi bem mais fragilizada do que os seus teóricos pretendiam comunicar.
E em uma nova guerra fria, as coisas condicionais são as primeiras a enfraquecer e a se esboroar.
O segundo ponto claro que devemos levar em conta é: a nova guerra fria está apenas no início. O mundo não se move numa direção que aprofunda a confiança política na China; pelo contrário, vemos cada vez mais cisão, distanciamentos contínuos e o estabelecimento firme de filtros e triagens a fim de mitigar todas as ameaças de interferência que acompanham os tentáculos do aparato de Pequim. Pouco importa o título empregado ao eixo inimigo, a realidade em curso diz que o mundo livre tende a julgar com cada vez maior clareza certos países despóticos – especialmente Estados como Rússia, China e Irã, além de subsidiárias ideológicas – como frentes cujo alinhamento pode pressupor extorsões e vazamento militar/político.
Uma vez comprovada a falha nesta conformidade estrutural, restam raras brechas capazes de impelir que outras nações sigam facilitando a constante vigilância da China voltada ao domínio forçoso dos inocentes vitimados sob essa dominação sistemática que apenas anseiam por viver as suas próprias vidas no esquecimento deste regime. Esta nuance foge aos mais condescendentes dos fiscais porque, caso a desculpa estatal for trajada sob o falso aval da pura ordem, certas ações se evidenciam pela privação ao encorajamento e o prolongamento imponente deste alcance arbitrário sobre quem quer que seja, ainda que sob outros ares geográficos.
Essas tendências deixaram o campo meramente teórico. Reportagens ilustram os movimentos governamentais encabeçados pelos nipônicos e cujo direcionamento atual já aponta na depreciação gradual da relevância estratégica ligada ao vizinho, alicerçados tanto na postura invasiva contra suas ilhas, quanto pela intimidade escancarada frente a forças belicosas em todo entorno próximo.
Em Cingapura as evidências demonstram vertentes de outra ordem mas, no seu cerne, exibem contornos parecidos. Observamos ao longo do ano a incessante movimentação em que negócios da origem atacada migram massivamente na intenção firme de reerguer as matrizes operacionais naqueles horizontes, sob pena de despencar nas iminentes ameaças causadas por um estreitamento comercial que sufoca tais empresas. Sua alçada não pressupõe as rédeas estendidas pelo domínio da nação fonte, assumindo para si esse capital como meio oportuno para abrigar esse contínuo isolamento empresarial em pleno cenário de imerso perigo.
Isto equivale a dizer: o alastramento expansionista já recebe represália de outra potência, paralelamente, ao desfecho oportunista que aproveita deste fluxo migratório. Seja como for, não evidenciam apoios plenos no fortalecimento capilar das amarrações sufocantes de Pequim.
Contudo, até mesmo aqui as abstrações sobrepujam os acontecimentos factuais.
Os galhos à beira do precipício não são os sistemas de reportes, mas sim os indivíduos.
Os regimes em ruínas não subsistem pela imponência dos ditames da infraestrutura formal internacional a eles conferidas, prosperam ao abocanhar aqueles que orbitam ao redor, no alcance passível das extorsões. O alvo imediato da caça não desponta numa mera idealização abstrata, concentram-se naquele sujeito que interrompeu os planos de saída pela raiz: aquele que mantém familiares acorrentados neste raio, o titular de propriedades por lá cravadas, que concentra quantias financeiras imersas nesta roda ou, não raramente, sujeitos em cujas lembranças persiste aquele conturbado controle cravado nos medos enraizados pela intimidação ostensiva durante as longas permanências sob a força arbitrária daquele punho de chumbo.
Tais perfis equivalem aos penduricalhos nos galhos referidos na analogia.
Por isto a ansiedade arrecadatória não desfaz a sua realidade fundamental, sem pressupor com isto a gestação originária da mais autêntica nação controladora financeira na concepção internacional, mas tão somente transcreve-se na precarização de um fugitivo retido na encruzilhada por este valor atribuído.
Alçar voo num indivíduo que obteve êxito num abandono completo se depara com complicações colossais mediante os trâmites palpáveis na aplicação destas tarifações impostas. Sem os instrumentos coercitivos para garantir aplicabilidade perante as distâncias em escala que fragilizam o vigor das vozes despóticas destas matrizes que vão ruindo nos horizontes estrangeiros ao deixarem lá longe o rastro habitacional e toda estrutura vinculatória enredadas e, desse modo, esmaecendo e convertendo essas falas intimidadoras com muito barulho mas perante o zero na aplicação eficaz deste clamor.
Todavia, aqueles não totalmente desamarrados lidam com a opressão avessa a isto, não proveniente pelo vasto encadeamento de um gigantesco reduto amealhador, senão pelo contínuo enlaçamento atado destas cordas remanescentes sensíveis. Tal investida não ressoa com a propagação harmônica exercida no seu grau magnânimo de plena ascensão, corresponde na fase crepuscular duma força desfalecente sugando incansavelmente a energia daqueles cujo contato não decaiu para o seu abandono total.
Diante do desenrolar destes impulsos que expõem, por si próprios, as inerentes ruínas deste trajeto fadado ao fracasso.
Essas táticas repassam infindavelmente ao esfolado os motivos de seu desmorono por não completar a extirpação num quadro total e alertando na busca premente daqueles que vivenciam as incertezas de não saírem plenos dali em romper urgentemente na redução de tudo o quanto os mantenha nos liames pendentes.
Eis um inefável paradoxo: O apelido conferido pelos mandantes na taxação estrangeira delineia, no pano fundo prático, o modo sôfrego no aprisionamento perante um exílio não acabado. Ao materializar estes impulsos eles intensificam de maneira diametral o encerramento do abandono almejado dissipando este laço derradeiro das capturas fáceis no encerramento de sua caça desesperada.
Pátrias que se alçam sedimentam pontes. As impalpáveis garras agitam-se à derrocada na agonia do poço sem regresso.
Tudo disto nada mais ressoa o fortalecimento absoluto em tributos coligados e mundiais. Implica no sobressalto colérico provocado face às perdas nos distantes ares inatingíveis acorrentando freneticamente o alcance dos reféns prestes a concluir as retiradas sob o feixe decrépito deste ocaso eminente.